O Segredo dos Seus Olhos, 2009.

Fazia alguns meses que eu não assistia a um filme que pudesse ser chamado de obra de arte. Bom, isto porque a listinha das minhas últimas películas inclui Sherlock Holmes numa versão que com certeza fez Sir Conan Doyle se revirar em seu túmulo.
Mas para minha grata surpresa, pude conferir esta semana o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, uma produção argentina/espanhola de Juan José Campanella.
"O Segredo dos Seus Olhos" é um filme sincero, feito com um orçamento que pode ser considerado modesto, mas que conseguiu a alquimia de reunir um ótimo elenco, uma boa cenografia, uma cuidadosa fotografia e enquadramentos na medida certa, e ainda por cima apresentar um bom roteiro, com ótimos momentos.
Parece fácil, mas não é para qualquer um filmar uma trama policial que consegue fugir de velhos clichês, já que mistura, sendo dó nem piedade, uma divertida amostra do irônico humor argentino, uma curiosa história de amor e uma pitadinha de realidade, tendo o governo de Isabel Perón como pano de fundo e a atuação da milícia anticomunista (que recrutou a bandidagem em defesa do Estado)
O ator Ricardo Darín (ótimo!!!) é o melancólico Benjamin Espósito, um funcionário público aposentado de um tribunal criminal que decide escrever um romance, baseado em um crime que ocorrera há 25 anos. Buscando um sentido para a vida, uma inspiração para a escrita ou só aparar as arestas, Espósito procura Irene, colega daquele passado que ele não consegue esquecer, por quem sempre nutriu um amor platônico.
Aliás, pode-se dizer que o crime/amor são os elos entre presente e passado, que se alternam continuadamente.
E o tempo, com suas idas e vindas, é o que traz uma maior profundidade à trama. São os 25 anos que separam o ontem e o hoje que dão o que pensar, e não há como sair do cinema sem pensar, nem que seja por um milésimo de segundo, a respeito da vida, da durabilidade do amor (pode ele permanecer guardado por tanto anos?) e das implicações do desejo de se fazer justiça.
E ao falar em desejo, vem a tona a questão da paixão, a palavra-chave do filme. É ela que move as personagens e que as caracteriza. E até mesmo leva ao assassino..
Sim, porque como diz o colega de Benjamin, o espirituoso Pablo Sandoval: "um homem pode mudar sua face, sua casa, sua família, seu amor, sua religião, seu Deus. Mas há algo que ele não pode mudar. Ele não pode mudar a sua paixão.. ”